Liderança aplicada na sala de aula

Liderança aplicada na sala de aula

Prezados servidores e estudantes, estou retomando minhas atividades letivas no campus São José (IF-SC).  Para quem gosta, lecionar é a mais gratificante das atividades. O retorno é imediato. O feedback é instantâneo e nenhuma aula é igual a outra.  Nunca consegui repetir a mesma aula em quase 20 anos como docente.  Para cada turma é necessário uma abordagem diferente do mesmo assunto.  Isso torna a profissão de docente uma grande aventura do conhecimento.

E dentro desse processo de retorno para a sala de aula, nessa semana tomei conhecimento de um filme indiano que me chamou muito a atenção. Estou disponibilizando o link para o filme completo que está disponível no Youtube:

Como estrelas na Terra

O nome do filme é “Taare Zameen Par”, que em indiano significa: Como estrelas na Terra. Mas no youtube esse filme está disponível com o nome:  Somos Todos Diferentes.  Independente do nome, o recomendo  para todos os servidores da educação e para todos os estudantes. Porque trata-se de uma lição de vida. Posso afirmar: vocês vão se emocionar ao longo do filme.  O final é realmente surpreendente.

Ele chama a atenção para alguns dilemas da docência e nos desafia para a mudança de atitude.   O filme mostra aquilo que é óbvio mas que esquecido por muitos: cada ser humano evolui em seu tempo e por isso a educação deveria ser cada vez mais individualizada (customizada).  Muitos professores gostam de dar aulas para os melhores alunos. Aqueles que são exemplares. E muitas vezes rejeitam ou ignoram os alunos com dificuldades. Mas são estes estudantes que precisam mais de nossa atenção como docente.

Já presenciei discussões na sala de professores onde docentes falavam mal dos estudantes de determinadas turmas acusando-os de mal saberem ler e escrever. Em uma escola pública que defende a inclusão nunca entendi essa abordagem como sendo ética. Os institutos federais foram construídos em periferias e em cidades do interior exatamente para promover o desenvolvimento e não para reforçar as desigualdades e dizer para os jovens que eles são incompetentes. Conheci alguns docentes que já ingreessam nos institutos querendo fazer apenas pesquisa. Provavelmente não entenderam o papel dos institutos na promoção do desenvolvimento dos arranjos produtivos.  Devemos ter o ensino como carro-chefe e toda pesquisa e extensão deve envolver os estudantes, contribuíndo para o processo de ensino-aprendizagem. É a famosa unicidade do ensino-pesquisa-extensão.

Todos são capazes de se desenvolver, cada um em um ritmo diferente. Cada um em seu tempo. Como as escadas de desenvolvimento que tenho falado no livro de liderança.

É evidente que em uma turma de 30 a 40 estudantes fica difícil dar atenção individualizada. Mas poderíamos pensar em alternativas de tornar mais eficazes os horários de atendimento paralelo, de monitoria, de tutoria e de reforço. Penso que os docentes poderiam em alguns casos atender via webconferência em horários pré-agendados. Penso que a webconferência também poderia ser utilizada para que os pais dos estudantes possam interagir com os docentes de seus filhos.  O desafio do desenvolvimento dos jovens com mais dificuldades precisa ser assumido também pelas famílias.  No filme fica evidente que os pais não sabem como ajudar. Mas podem se tornar parceiros dos docentes.

Tenho refletido que o MEC poderia convocar professores aposentados a receberem bolsas para atenderem grupos de estudantes com mais dificuldades em horários extracurriculares. Isso será necessário em breve por conta do apagão da docência.  A falta de professores vai se agravar.  O programa Universidade Aberta do Brasil é um grande iniciativa. Mas não dá conta sozinha do tamanho do desafio de formar mais e melhores professores.

Muitas vezes percebi que os meus colegas adotavam o mesmo plano de ensino da turma da manhã como sendo igual ao plano de ensino da turma da noite (para mesmas disciplinas).  A justificativa é que as duas turmas devem seguir o mesmo ritmo para possibilitar a transferência de turno. Mas é evidente que estudantes do noturno são muito diferentes dos estudantes do matutino e do vespertino.

Penso que deveríamos traçar um raio X completo de cada turma buscando informações precisas de cada estudante antes de escrever o plano de ensino. Antes de entrar para a primeira aula.  Na impossibilidade disso tenho feito um levantamento de informações na primeira aula.  Com isso tenho procurado preparar minhas aulas considerando as necessidades dos estudantes.

Há alguns anos tenho conversado com a área de Suporte Educacional e comentando que o docente deveria receber com antecedência o “Banco de Talentos da Turma”.  Ou seja, durante a fase de inscrição para os cursos os estudantes preenchem uma série de questionários socioeconômicos. Depois fazem provas e têm seus conhecimentos avaliados. Ao longo dos semestres seu comportamento frente aos componentes curriculares também são aferidos. Todas essas informações deveriam fazer parte do Banco de Talentos. Cada estudante deveria ter seu perfil traçado a partir de um sistema que permitisse que o docente pudesse adotar uma abordagem diferenciada e customizada. Isso sim permitiria que no primeiro dia de aula o docente pudesse ir dosando os conteúdos para desenvolver os estudantes de forma mais humanizada. Cada pessoa tem uma forma de aprender que é diferente.

Na área de liderança podemos citar que David Kolb publicou interessante estudo sobre esse assunto.

A ENAP faz uso dessa metodologia para capacitar os diretores dos campi dos institutos federais.

Conheçam mais acessando o link: Estilos de aprendizagem. Sugiro que vocês façam suas autoavaliações e conheçam mais sobre como vocês aprendem melhor.

http://www.fucamp.edu.br/wp-content/uploads/2010/10/11%C2%AA-GUSTAVO-E-M%C3%81RCIA.pdf

Se sabemos que um estudante aprende de forma mais abstrata ele precisa receber estímulos nesse sentido. Há estudantes que somente aprenderão nas aulas práticas dos laboratórios.  Todos conhecem aquela máxima de que aprendemos melhor quando ouvimos, vemos e fazemos.

Esses mesmos princípios também se aplicam ao processo de liderança. Temos que conhecer nossas equipes para poder influenciar e inspirar. Cada ser humano apresenta necessidades diferentes. O que motiva uma pessoa não motiva outra.  Por isso defendo que os mesmos príncipios de gestão e de desenvolvimento de lideranças se aplicam nas salas de aulas.

Nas salas de aula estão as lideranças do futuro. A próxima geração de professores, empresários, médico, engenheiros, vereadores, prefeitos, dentistas, psicólogos, filósofos…

As mesmas regras de feedback que se aplicam aos líderes se aplicam aos estudantes: “nunca devemos dar um feedback negativo em público”.

Mas temos dificuldade em dar um feedback em particular. Todos acabam participando. Porque durante as aulas, muitas vezes acabamos dizendo para o estudante que a abordagem dele está equivocada.  Mesmo que sejamos cuidadosos em dizer isso precisamos lembrar que o estudante está diante de sua turma.

Imaginem que em uma turma do Ensino Médio, muito provavelmente o menino está interessado na menina do lado e vice e versa.  Nosso feedback negativo tem efeitos danosos na autoestima desses jovens e pode ter como resultado a retração e a falta de participação. Alguns estudantes vão escondendo suas dúvidas com medo da opinião dos colegas.

O filme trata dessas questões. Da forma como a criança se sente quando não consegue responder ao professor. Ela vai se sentindo fracassada dia após dia.

Sei que falar é fácil, mas devemos buscar alternativas. Em muitas escolas estão sendo utilizados VOTADORES ELETRÔNICOS.

Uma determinada questão é apresentada e são mostradas possíveis respostas. Os alunos votam de suas carteiras e o docente tem em tempo real a partir de um programa instalado em seu computador a estatística de respostas.  Ele pode perceber em tempo real qual foi o percentual de compreensão e pode também saber quais os estudantes que reiteradamente vem se equivocando em suas respostas.  Os alunos não precisam se expor e o docente pode adotar abordagens diferentes para promover o desenvolvimento integral da turma.

E isso vale também para incentivar aqueles estudantes que são mais bem preparados. Em alguns países há turmas separadas para alunos considerados “superdotados”. É normal em todas as populações existir um percentual de 3,5 a 5% de alunos superdotados. Isso significa que em uma cidade onde há 20 mil estudantes podem existir 1.000 alunos superdotados. Esse número é muito grande. O Brasil desperdiça esses talentos porque poucos são os docentes que estão preparados para lidar com esses jovens. Muitas vezes esses estudantes  são classificados como hiperativos ou diagnosticados como portadores de transtorno de déficit de atenção e encaminhados para tratamento psicológico.

Talvez estejamos perdendo a chance de desenvolvermos grandes pesquisadores do porte do Einstein, Newton, Tesla, Lattes,  Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Vital Brasil,  Paulo Freire, Rubem Alves e Alvaro Prata.

Não estou propondo a criação da escola de mutantes do filme X-Men.  Estou propondo que o estudante com capacidade especial receba uma educação que possa desenvolver todo seu potencial humano.  É evidente que um aluno superdotado tendo aulas com um professor despreparado e desmotivado com seu salário terá dificuldades em se concentrar e facilmente será classificado como um garoto ou garota-problema.

E esse racicínio se aplica também aos alunos com dificuldades de aprendizagem ou portadores de necessidades especiais. Durante alguns anos ministrei aulas para alunos surdos.  Foi uma lição de vida ver o potencial daqueles estudantes.  Há alguns anos muitas pessoas tratavam os surdos como retardados. Um erro grosseiro. São jovens dotados de grandes habilidades e que muitas vezes não tiveram a oportunidade de se desenvolverem adequadamente. No desenho, disciplina que ministrei aulas, pude descobrir grandes talentos .

Por isso tenho muito orgulho de saber que o IF-SC estará inaugurando nesse mês de outubro o primeiro campus Bilingue do país para atender estudantes surdos (Palhoça).

Para finalizar, também defendo a idéia de que os alunos deveriam ser avaliados não pelo que sabem, mas pelo que evoluíram. Vamos imaginar que apliquemos uma prova no primeiro dia de aula e tenhamos a compreensão do grau de compreensão dos estudantes diante de determinado tema.  Depois poderemos preparar as aulas para desenvolver as carências e ir continuadamente avaliando os progressos. Mas ao invés de avaliar todos da mesma forma poderíamos ir avaliando o diferencial de aprendizado de cada estudante.  O importante é o quanto cada um conseguiu evoluir em seu processo de aprendizagem.  Não é uma competição por melhores notas conforme alguns gostam de promover. Cada ser humano é diferente e por isso não tem sentido a comparação direta.

Em uma mesma turma temos dezenas de histórias diferentes. Alguns alunos vem de família muito humilde, alguns foram criados sem a referência paterna, outros passam fome, outros vem de famílias com melhor estrutura familiar. Outros tem que começar a trabalhar muito cedo para ajudar no sustento da família.  Como podemos dizer que um ser humano  é melhor do que o outro?

Pensar assim dá trabalho? Sim, com certeza. Mas como vamos avançar como nação sem repensar a educação? Sou apenas um professor com uma visão. Existem milhões de visões diferentes.

O governo tem comemorado avanços no IDEB da educação básica. Sim isso é um grande avanço.  Mas vejam que o IDEB do Ensino Médio tem evoluído 0,1  ponto a cada 2 anos.  Nesse ritmo vamos esperar até 2057 para atingir a nota média mundial dos países desenvolvidos que é 6,0.  Compreendo que ao melhorar a educação básica é natural que o Ensino Médio melhore.

No sul do país a RBS começou uma campanha chamada: A educação precisa de respostas.  A campanha  afirma que apenas 2% dos estudantes querem ser professores.

Fica evidente que a carreira de professor é considerada um fracasso para a juventude. Nessa campanha a RBS também deveria promover mais  a valorização dos docentes. A televisão tem muita força na formação de opinião e na criação de tendências.

Porque se ninguém mais quiser ser professor o problema não vai ser somente das classes mais desfavorecidas. Será um problema de toda sociedade porque mesmo os docentes das escolas da elite também não são respeitados e também não são bem preparados.

Se não reconhecermos que temos um problema grave não vamos melhorar nosso IDH. Estamos na posição 84 no mundo, mesmo sendo uma das 10 maiores economias do mundo.

Imagino que a docência deveria ser ocupada pelos estudantes mais dedicados e aqueles que possuem uma visão holística.

Não estou dizendo que apenas os que tiram melhores notas deveriam ser os docentes. Mas vejam que os estudantes mais bem preparados em termos de estudo procuram os cursos mais concorridos: medicina, odontologia,  arquitetura, publicidade, etc.  Gostaria que os cursos de licenciatura fossem procurados como primeira opção dos estudantes mais brilhantes.  Infelizmente tenho percebido cursos de licenciatura na rede federal com procura menor que um candidato por vaga. Não gostaria que meus filhos tivessem aulas com professores mal preparados e que atuam na docência porque não tiveram opção.  Faltam professores, então alguns pensam que é natural que se aceite qualquer um. Isso não pode ser admissível.

Penso que deveria existir um selo de certificação,  a exemplo do INMETRO. Os docentes deveriam ser certificados a cada 5 anos.  Para receberem a certificação  deveriam participar de um número mínimo de horas de capacitação em didática, tecnologias educacionais  promovidas por instituições sérias e deveriam demonstrar equilíbrio emocional para mediar conflitos.  Porque os docentes lidam com conflitos diários e precisam estar bem preparados para isso. Não basta conhecer os conteúdos de suas matérias e ter didática.  Penso que os docentes certificados deveriam receber uma bolsa do governo federal (para começar 2 mil reais adicionais ao seu salário) e uma série de outras vantagens (internet gratuita em suas casas por exemplo).  Penso que isso induziria uma mudança na valorização da profissão.

Penso que os docentes deveriam ser os profissionais mais bem pagos, mas deveriam ser também os que mais estudam e as mentes mais bem preparadas da sociedade.   Penso que não vamos valorizar a profissão pagando bem para professores medíocres.  Estes devem ter a opção de se capacitarem, de  se reciclarem ou deveriam deixar a docência para o bem dos nossos  estudantes.

Quando os docentes forem reconhecidos como profissionais bem sucedidos e valorizados pela sociedade tenho certeza de que isso vai chamar a atenção dos jovens.

E não se esqueçam de assistir ao filme:

” O filme conta a história de uma criança que sofre com dislexia e custa a ser compreendida. Ishaan Awasthi, de 9 anos, já repetiu uma vez o terceiro período (no sistema educacional indiano) e corre o risco de repetir de novo. As letras dançam em sua frente, como diz, e não consegue acompanhar as aulas nem focar sua atenção.  Seu pai acredita apenas na hipótese de falta de disciplina e trata Ishaan com muita rudez e falta de sensibilidade. Após serem chamados na escola para falar com a diretora, o pai do garoto decide levá-lo a um internato, sem que a mãe possa dar opinião alguma. Tal atitude só faz regredir em Ishaan a vontade de aprender e de ser uma criança. Ele, visivelmente entra em depressão, sentindo falta da mãe, do irmão mais velho, da vida… e a filosofia do internato é a de disciplinar cavalos selvagens.
Inesperadamente, um professor substituto de artes entra em cena e logo percebe que algo de errado estava pairando sobre Ishaan. Não demorou para que o diagnóstico de dislexia ficasse claro para ele, o que o leva a por em prática um ambicioso plano de resgatar aquele garoto que havia perdido sua réstia de luz e vontade de viver”

Atenciosamente,

Professor Jesue Graciliano da Silva

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *