A importância de indicadores na gestão

Caros estudantes e servidores,  nessa postagem vamos refletir com vocês um pouco mais sobre a importância dos indicadores na gestão dos Institutos Federais.  Já comentamos superficialmente o assunto anteriormente.

Todos nós,  servidores públicos da educação, temos a consciência de que devemos atuar com o foco no sucesso dos estudantes.

Como definir o que é sucesso e como medir os resultados dele é o grande desafio que temos.

A reitoria dos institutos tem como um de seus objetivos estabelecer diretrizes gerais para a gestão pedagógica e administrativa a partir da interação com os estudantes e servidores dos campi e da reitoria.

Mas para saber para onde temos que concentrar nossos os esforços é preciso saber em detalhes o que precisa ser melhorado. Se não podemos mudar radicalmente a direção podemos ir corrigindo aos poucos o rumo.  Sabemos que pequenas mudanças  hoje podem fazer grande diferença ao longo dos anos. Lembrem-se do “efeito borboleta”.

Se o que fazemos na reitoria e na direção dos campi não tem efeito direto para a melhoria do aprendizado dos estudantes, então estamos fazendo nosso trabalho de forma inadequada.

Entendemos que sem indicadores precisos não há condição plena de se saber se os estudantes estão aprendendo, se estão tendo sucesso,  se estão evadindo…. Não há condições de acompanhar de forma eficiente como os recursos públicos são aplicados.

Poderiamos ser mais eficientes ao analisar os indicadores obtidos no processo de ingresso e disponibilizá-los na forma de conhecimento efetivo para os docentes. No inicio do curso o docente deveria saber exatamente qual é a condição de entrada do aluno.  Não adianta o docente receber uma média da turma.  Os docentes precisam conhecer o “prontuário do estudante para prescrever a dose certa do remédio.”  O docente precisa planejar suas aulas partindo das necessidades de cada estudante. Sabemos que é difícil fazer um atendimento individualizado mas não vejo como fazer diferente.  Por isso que em alguns estados há dois professores para as séries iniciais.

O diagnóstico que tenho realizado no primeiro dia de aula deveria ser realizado de forma institucional. Não sabemos se os alunos estão aprendendo, se estão prestes a abandonar os estudos ou se estão motivados. Não sabemos seu desempenho acadêmico anterior. Não sabemos efetivamente por que eles desistem. Não sabemos se eles são bem sucedidos quando deixam a instituição. Não há rastreabilidade dos egressos. Provavelmente boa parte da evasão está relacionada com questões externas onde há pouca possibilidade de intervenção dos institutos federais.

Uma pesquisa da FGV é muito interessante nesse sentido:

TPE_Motivacoes da evasao escolar FGV

Algumas delas até podem ser resolvidas. Por exemplo, se sabemos que os alunos estão evadindo por falha no sistema de transporte escolar ou falta de segurança podemos fazer mediação junto aos orgãos públicos para solucionar os problemas.

Mas pouco podemos fazer quando o estudante se vê obrigado a evadir porque houve alteração de seu horário de trabalho ou quando ele se vê obrigado a resolver problemas particulares que não nos dizem respeito.  Muitas vezes o aluno não vai nos informar o motivo e precisamos respeitar isso.
Uma parte da evasão é decorrente do fato de que os Institutos Federais são mais inclusivos que algumas universidades mais tradicionais.  Se temos um curso com procura de 30 candidatos por vaga, provavelmente os selecionados serão alunos de altíssimo nível de estudo.  Nesse caso o quadro de evasão tende a ser menor.  Um ARTIGO TCU SOBRE EVASAO NOS INSTITUTOS de agosto de 2012 trata especificamente dessa questão a partir de uma interessante análise estatística.

Compreendemos esse contexto, mas entendemos que há um parte da evasão que está relacionada com questões pedagógicas e gestão ineficiente: planos de ensino elaborados sem considerar as condições iniciais e histórico dos estudantes, horários de aula incompatíveis com a mobilidade urbana, didática inadequada de parte dos docentes, falta de monitoria para disciplinas mais difíceis, falta de aulas práticas, laboratórios desatualizados, carga de trabalho extraclasse excessiva entre outras.

Entendemos que o problema da evasão já inicia no momento de abertura dos cursos. Porque a empregabilidade também influencia a motivação para a permanência.

Se os cursos são abertos sem conhecimento efetivo das demandas regionais é como se estivéssemos atirando vagas ao vento, como sementes.  Nem todas encontrarão solo fértil.

Há instituições que se relacionam tão bem com a sociedade e que planejam suas vagas considerando a taxa de crescimento demográfico e econômico da região. Se para os próximos 4 anos há previsão de necessidade de 400 profissionais na area de enfermagem não há sentido em se oferecer 2000 vagas no período.  Provavelmente deixaremos de ofertar vagas em outras áreas e provavelmente estaremos formando dezenas de pessoas que estarão atuando em outras áreas após concluído o curso.

Algumas pessoas não se importam com isso e justificam que educamos para a vida. Mas o trabalho também é uma parte importante da vida.  E podemos trabalhar como empreendedores, como empregados, em cooperativas, etc.  Temos que pensar nisso quando abrimos novas vagas.

Se sabemos as notas dos estudantes quando eles ingressam na instituição podemos criar cursos prévios de recuperação de conteúdos ou de empoderamento. Algumas instituições oferecem cursos chamados de pré-técnicos. Algumas instituições ensinam os estudantes a usarem um computador, a usar internet para pesquisa e ensinam também técnicas de estudo. Isso faz com que o estudante possa otimizar o seu tempo de aprendizado.  Muitos alunos do curso noturno não conseguem estudar mais que algumas horas extra-classe por semana. Se eles puderem otimizar o pouco tempo que possuem isso já será muito importante. Nossos regulamentos dizem que somos inclusivos, mas  nem sempre apoiamos aqueles estudantes que possuem mais dificuldades.  Muitos evadem quando percebem que não conseguem compreender os conteúdos ensinados.

Quando perguntamos o número de estudantes de nossos campi recebemos respostas confusas. Muitas vezes os números informados são totalmente incompatíveis com o bom senso. Um campus com 10 salas de aula (aproximadamente 30 alunos em cada sala) dificilmente poderá comportar mais de 1000 alunos durante os 3 turnos. Nossos sistemas gerenciais são alimentados pelas equipes de registro acadêmico. Mas há momentos em que não há uma compreensão clara dos conceitos e por isso diferentes cadastradores inserem informações de forma diferente.

O número real de estudantes dos nossos campi não é algo intangível. Eles podem ser contados fisicamente. Mas temos dificuldades de garantir com precisão que os números informados foram coletados corretamente e se os alunos informados estão realmente cursando depois de uma ou duas semanas.

Como vamos melhorar o processo de ensino-aprendizagem se não conseguimos nem ao menos calcular de forma precisa quantos estudantes temos no início do semestre, quantos estão frequentando efetivamente as aulas e quais são nossos percentuais de evasão, de trancamento, de permanência, de aprendizado. No IF-SC já fizemos um censo interno porque deixamos de confiar nos números obtidos no sistema acadêmico. Não por culpa do sistema, mas porque a alimentação dos dados nem sempre é precisa.

A partir desse censo verificamos alguns problemas que foram corrigidos nos relatórios. Mas isso tem que ser feito pelo menos uma vez pelo semestre.

Entendemos que o estudante precisa ser acompanhado e desenvolvido na plenitude. Sem conhecê-lo em profundidade não há educação efetiva. Por isso há correntes que defendem a educação customizada (cada estudante deveria ter um plano de ensino individual).

Penso que os diretores dos campi devem ter uma coleção de indicadores em suas paredes. A DTIC do IF-SC  utiliza  telas de monitoramento dos equipamentos  servidores de rede.  Eles acompanham temperatura, velocidade do link, tentativas de invasão entre outras informações relevantes. Os Diretores deveriam agir da mesma forma.

Eles deveriam acompanhar semanalmente os principais indicadores de seus campi por meio de uma tela de 50 polegadas localizadas na frente de suas mesas nos gabinetes. Essas informações em forma gráfica deveriam ficar rodando e possibilitar o detalhamento sempre que o diretor precisar se aprofundar em algum indicador.  Penso que em cada pró-reitoria deveria existir um monitor para cada campus ou uma tela grande onde os indicadores dos campi fossem aparecendo. Isso facilitaria em muito o acompanhento dos processos pela reitoria.

E quais seriam estes indicadores?  Não bastam os indicadores oficiais do Acórdão do TCU. Para começar,  os diretores deveriam saber o número real de estudantes que estão frequentando as aulas em cada turma.  Deveriam saber se há diferenças de evasão entre as fases dos cursos e entre os turnos. Se os estudantes estão necessitando de apoio psicológico, monitoria, assistência estudantil por exemplo. Se há disciplinas que reprovam mais que outras, se há professores cujas taxas de reprovação destoam do conjunto. Os diretores deveriam também saber o número de aulas de cada professor para poder planejar novas atividades com a carga horária excedente. Se um docente ministra 10 aulas por semana ele tem um espaço ocioso de 10 aulas por semana onde poderiam ser ofertados cursos de formação inicial e continuada para a comunidade e também para os próprios servidores.

Entendo que cada hora-aula de um docente custa ao estado brasileiro aproximadamente 60 reais.  Para chegar a esse valor consideramos que um  docente ministra em média 20 aulas por semana e ganha um salário médio de 5 mil reais por mês. Se há 10 horas ociosas em sua carga horária,  então o desperdício mensal de recursos públicos é de 600 reais. No ano são quase 7  mil reais perdidos. Um aluno dos Institutos Federais custa aproximadamente 12.000 reais por ano. Se uma turma deveria ter 32 alunos e com a evasão fica com 20 ao final do ano há um desperdício de 12.000 reais por mês. No ano serão 14 mil reais de recursos aplicados ao vazio.  Cada carteira vazia em uma sala de aula e cada hora aula ociosa significam recursos públicos mal aplicados. É como se fosse uma grande torneira jorrando água sem necessidade.

Mas sem indicadores claros e que sejam de fácil compreensão não há como acompanhar em tempo real o que acontece em sala de aula. O cockpit de um avião é cheio de indicadores que são fundamentais no vôo. Os pilotos estão sempre monitorando dezenas de informações que permitem que eles saibam altitude, posição, combustível, pressão, temperatura, velocidade entre outras. Sem isso o vôo se torna uma aventura perigosa.

Compreendemos que sem o uso intensivo de indicadores, de tendências e séries estatísticas o que fazemos em gestão não passa de “achismo”:  Na verdade as pessoas estão dizendo implicitamente: “eu acho que essa diretriz trará algum resultado.  Tenho sentimento de que esse é o melhor caminho. Minha experiência mostra que devemos fazer isso.”  Muitas vezes somos traídos pelas nossas impressões equivocadas. É evidente que a experiência dos gestores reduz os erros advindos da falta de indicadores para a tomada das decisões.

Entendemos que com dezenas de campi e milhares de alunos não é mais possível atuar de forma amadora. Precisamos modificar nossa postura e planejar ações efetivas de curto, médio e longo prazo para aumentarmos nosso grau de acompanhamento do processo pedagógico. Se sabemos efetivamente o que está dando certo, vamos manter e melhorar. Se sabemos o que está dando errado podemos corrigir.

Um exemplo: todos os anos pagamos centenas de bolsas de assistência aos estudantes.  Sempre nos perguntamos se há uma correlação entre o desempenho dos alunos que recebem auxilio e dos alunos que não recebem?  Compreendemos que no mínimo estamos garantindo distribuição de renda. Mas não temos segurança se a maioria dos estudantes que recebem o benefício realmente precisam.

Como os docentes podem planejar melhor suas aulas se não conhecem informações precisas dos estudantes que recebem em cada turma? Seria muito importante o docente conhecer o histórico completo (prontuário) de cada estudante tais como a nota de ingresso e os assuntos em que ele mais teve dificuldades até o momento para planejar as aulas de forma a facilitar o processo de compreensão dos conteúdos. Não basta saber que ele foi aprovado ou não. Cada aluno deveria ter uma ficha completa como um prontuário médico onde é possível perceber relação entre causa e efeito da medicação dada anteriormente. Cada professor acaba fazendo suas experiências sem muitas vezes conversar com o professor anterior sobre detalhes do desempenho dos alunos.

Depois de formados os estudantes muitas vezes não são acompanhados de forma efetiva. Como saber se os conhecimentos ensinados foram relevantes para a formação dos estudantes?
Nos EUA os alunos que concluem os cursos técnicos são submetidos a exames parecidos com os praticados pela OAB em cada estado. Esses indicadores de desempenho são recebidos pelos Colleges que podem analisar se a formação oferecida a eles está sendo efetiva. Sem a aprovação nesses exames, os estudantes não podem exercer a profissão, mesmo tendo concluído com êxito os cursos técnicos.

Com a introdução de diários eletrônicos e controles de acesso podemos ter em tempo real informações sobre a presença dos estudantes. Se os docentes alimentarem o sistema com informações parciais sobre o desempenho dos estudantes será possível pensar estratégias de recuperação, monitoria e tutoria antes de uma possível reprovação e evasão. Será possível planejar o processo de suporte pedagógico e intervir de forma mais eficiente.

Precisamos que os sistemas de ingresso, acadêmico, de assistência ao educando e de diários eletrônicos sejam integrados para cruzamento de informações e conseguirmos agir rápido. Por isso tenho defendido tantos investimentos em Tecnologia da Informação.

Continuaremos em breve essa discussão.

Atenciosamente,

Prof. Jesué Graciliano da Silva

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